Somos Todos uns Merdas

19 mar

E você recebe uma pancada. E aguenta outra. Você vira o rosto e vai embora. Não vai acontecer de novo. Mas acontece. E um dia seu limite estoura.

Ou não. Ou você simplesmente aceita as pancadas, com a mansidão de um cordeiro.

Diz-se que se você jogar um sapo em água quente ele irá pular de imediato mas se, ao invés disso, colocá-lo em água frio e esquentar a água aos poucos, eventualmente ele irá morrer cozido, gordo e feliz.

Então, digo: somos sapos. Uns sapos de merda, cozinhando lentamente e idolatrando nossos cozinheiros. Dizendo, manda um tempeirinho aí, que a água está ficando boa.

Espera aí, você pensa, não vou ler essa porcaria. Não quero ser xingado. Vou para o próximo artigo, vou compartilhar essa foto de gatinho, esse vídeo do menino levando um baita tombo. Eu vou dizer, volta aqui seu merda, eu não terminei. Na realidade eu nem comecei.

Não sou de xingar, na realidade peco pelo otimismo. Espero o melhor das pessoas. Mas hoje não.

Brasileiro é uma bosta. Não, isso ainda é otimista. O ser humano é uma bosta. Mas “brasileiro” é um fedor que eu conheço melhor.

Oras, não digo novidade alguma. Quem nunca proferiu uma frase assim? Mas NÓS somos brasileiros. Eu, você – se você nasceu e formou sua personalidade aqui, mesmo que mais tarde você vá morar em um país mais bonito e frio, você continua sendo brasileiro. Babaca como todos nós.

Brasil é samba, carnaval, futebol e BBB. E você odeia tudo isso, por isso diz que não se identifica com a “cultura brasileira”. E mandar o Galvão calar a boca, e reclama que passe BBB enquanto estão acontecendo os terremotos no Japão. Mas se você sabe que a Globo é o ápice da manipulação de massa, porque você ainda sintoniza nela? Porque você só abre a boca para falar mal da Globo com seus amiguinhos que também detestam a Globo? “Meu Deus, como eu odeio essa manipulação de massa” e vai comentar o que está nos “Trending Topics” do Twitter, a notícia que foi veiculada hoje por algum grande portal ou por algum grande blog.

Massa manipulando massa também é uma merda. Manipulação vinda do seu convívio social, manipulação que às vezes nasce até sem querer, continua sendo manipulação. Continua sendo uma alienação que aceitamos como cachorrinhos porque vem dos “nossos amiguinhos” e não da malvada “grande mídia”. Você aceita sem questionar aquilo que vem via RT enquanto reclama das falsidades das grandes redes de TV: parabéns, bem vindo ao clube, você é um babaca.

Você pode ler mil livros e continuar sendo manipulado, se não aprender a fazer perguntas. Perguntar, questionar, é uma arte, como talvez você já tenha percebido ao ver aquele coleguinha filho da puta metido a questionador perguntar ao professor o que ele acabou de falar. Com as mesmas palavras. Cinco segundos depois do professor ter explicado aquilo. “O céu é azul” seguido por “Professor, o céu é azul?”.

Meu deus, nós adoramos reclamar. E nós adoramos ouvir reclamações de quem odeia o mesmo que nós. Mas compartilhamos nosso ódio por futilidades, mesquinharias. A colocação de queijo no sanduíche do Subway. Aquele programa que só trava. Aquele sistema operacional. As embalagens difíceis de abrir.

Ah, eventualmente reclamamos de política. A polêmica da Maria Bethânia. A última CPI. O apagão de ontem. Reclamamos hoje, esquecemos amanhã.

A internet só nos ajuda a explorar nossa mediocridade. Sim, claro que somos bem informados – lemos dezenas de blogs, sabemos tudo que está sendo comentado. Conhecimento raso, colher de chá, espalhado com indignação. Os desastres acontecem e somos uns entendidos, entendemos de política, de usinas nucleares, de futebol, de tudo o que podemos encontrar na Wikipédia. Somos uns merdas bem informados. Ninguém quer ouvir que precisa de experiência para entender alguns assuntos. Que precisa ler uns livros grossos e sem figurinhas. Que é um babaca e que vai ser necessário muito estudo para ser um pouquinho menos babaca.

Eu sou especialmente babaca, claro. Eu devia ter escolhido continuar sem dizer nada. Eu deveria ter continuado compartilhando fotos de gatinhos e textos sobre os acontecimentos de hoje. Sobre a reclamação de hoje.

Não, hoje eu vou falar sobre o que realmente me incomoda.

Que as empresas de alimentos como a Nestlé e as empresas sejam farmacêuticas sejam as coisas mais asquerosa da face da terra, com seus vídeos bonitinhas de humanidade e amizade enquanto exploram gente que não tem como pagar por alimentos, enquanto nos enchem de coisas que fazem mal a nossa saúde, enquanto fazem acordos milionários que prejudicam seus consumidos e só servem para engordar o bolso dos investidores . E nós achamos bonito e pedimos mais uma Coca-cola e McDonald’s para viagem, por favor.

Que o governo seja uma merda e que se meta em tudo o que não deve, e que, por diabos, na era da tecnologia se tenha a impressão de que as contas sejam feitas por macacos nos ministérios.

Que a gente só reclame do que está acima de nós, esperando que façam as coisas por nós, enquanto continuamos sentados nas nossas cadeirinhas confortáveis. Que sempre tenhamos planos de ajudar outras pessoas – nunca realizados. Claro que ajudaríamos. Se tivéssemos tempo, dinheiro. E gastamos dinheiro em besteiras e na sexta-feira a noite ficamos na frente do computador em estado vegetativo.

Ou você se conforma, ou é taxado de hipócrita. Se tenta fazer um pouco, é xingado por não fazer tudo. E pior quando você faz um pouco e acha que tá fazendo tudo, porque deixar de comer carne ou reciclar seu lixo tem quase o mesmo efeito sobre as causas do problema quanto rezar. Pensamento positivo, efeito zero.

Somos todos uns merdas. Alguns ocupam mais espaço nos grandes baldes de merdas, mas continuamos sendo todos uns merdas. Somos porcaria nenhuma, envaidecidos por nossa existência efêmera. Somos todos poeira estelar – sabe o que isso quer dizer? Que somos nada. Que viemos do nada e voltaremos ao nada. O seu colega curte BBB e você lê Nietzsche? Parabéns, você é um montinho de merda 100 gramas maior.

E qual a solução então, você me pergunta. E quem disse que eu tô aqui para trazer soluções? Eu vim aqui para te ofender. Eu vim para dizer que você é como eu, e eu me conheço bem o suficiente para saber que sou uma imbecil.

O que fazer, o que fazer… ?

Fazer.

Não vegetar, não dar RT, não ver o centésimo vídeo engraçadinho.

Talvez não comer carne hoje só para poder pensar um pouco sobre os sacrifícios que são feitos só para que você tenha uma porcaria de um bife no seu prato.

Fazer uma doação. Ajudar alguém que precisa, só para sentir que, por mais que você faça, nunca vai ser o suficiente.

Consumir menos. Não aumentar aquela pilha de jogos que você não tem tempo de jogar, aquele coleção de tralhas precisa aumentar, aquele gadget de última geração é necessário? Só para poder sentir que consumismo é assassinato, que esse nosso consumismo desenfreada está alimentando um Cérberus  gigante de grandes empresas que consomem recursos e só tornam os ricos mais ricos e os pobres mais miseráveis, mas que nós tratamos como se fosse um cachorrinho.

Mandar aquele seu amigo fumante tomar no cu quando ele fizer pose para acender seu cigarro. Foda-se, não acho bonito, se você acha que tem o direito de poluir a merda do ar que eu respiro eu me acho no direito de te mandar a merda.

Faça algo que seja difícil, que te faça sentir raiva, que te faça chorar. Experimenta fazer algo ao contrário, ao menos uma vez.

Talvez isso nos faça menos babacas. Talvez isso seja nossa única maneira de pularmos fora da água que está esquentando.

Ou talvez não.

Foda-se.

Leave a Reply