Os Jogos e a Mente Criativa
21 ago
Existe algo como “enxergar demais” em um jogo?
É um fenômeno interessante, que alguns dos jogos de gráficos mais memoráveis para mim sejam jogos 2D, como Braid, ou que possuem um visual mais limpo, como Okami. São esses jogos que eu me lembro melhor, e não aqueles de aparência extremamente realista.
Jogos, ao se tornarem cada vez mais produtos comerciais, tem negligenciado a peça mais importante no processamento de um jogo: a mente do jogador. Não que isso seja culpa exclusivamente dos desenvolvedores, já que jogos, sendo verdadeiras explosões multimídia, com sons, imagens e movimento, por natureza tendem a suprimir a parte mais imaginativa das nossas mentes.
Quantos não leram O Senhor dos Anéis e produziram um mundo muito maior do que qualquer filme seria capaz de recriar? E isso vale para essencialmente qualquer livro adaptado para o cinema – minha Hogwarts, aquela que eu criei quando comecei a ler Harry Potter, é muito mais profunda do que aquela mostrada nos cinemas. Os universos que eu crio quando leio são sempre mais ricos do que aqueles mostrados nos cinemas, nos jogos.
(Isso não quer dizer que filmes não possam trazer novos detalhes que nossa mente não criou por si só, como… a voz do Snape, por exemplo, e que sejam muito interessantes…)
Claro, nossa mente é com um processador infinito, capaz de gerar mundos gigantes com pequenos estímulos… uma linha em um livro é capaz de gerar uma pessoa, uma rua, uma casa… mas, se isso acontece com uma linha em um livro, porque nossa mente não trabalha tão ativamente com estímulos maiores, como os visuais do cinema ou dos jogos?
Porque nossa mente é preguiçosa.
Quando você lê um livro, você TEM que imaginar algo, você tem que criar o conteúdo daquelas linhas, porque seu cérebro não aceita que você esteja ali apenas lendo palavras.. palavras não são nada para nosso cérebro, apenas símbolos que devem ser transformados em imagens, sons e até mesmo cheiros. Quando já existe um estímulo forte o suficiente no mundo externo, nossa mente não se esforça em recriar algo adicional, já que não se faz necessário.
Isso quer dizer que jogos estão fadados a nunca realmente “entrarem” na cabeça do jogador? Não, pelo contrário, eu diria que essa é uma das coisas mais interessantes que um jogo pode fazer. Mas não é algo trivial: um escritor mediano consegue fazer o leitor imaginar muitas coisas, mas um jogo mediano nunca vai acordar nossa mente desse estado preguiçoso, de simplesmente aceitar o mundo externo. Por outro lado, assim como o cinema, os jogos são capaz de provocar nossas mentes. De chamar nossa atenção, colocar algo no ar e deixar nossa mente capturar a isca.
E não precisa ser algo exagerado, teatral… apenas basta ser… suficiente.
Você já conseguiu sentir cheiros enquanto jogava? Eu digo, sem ser cheiro de salgadinhos ou qualquer coisa que você coma no sofá? Eu fiquei aqui pensando e consegui imaginar um jogo que chegou bem perto disso, que me fez sentir cheiro de terra molhada, de flores…

Sim, Flower. Pensando agora, talvez seja um dos jogos mais imersivos que eu já joguei. Eu jogava Demon’s Souls, até morrer pela décima vez de alguma maneira muito estúpida, e resolvia ir jogar Flower para relaxar. E eu ia para outro mundo, eu realmente me sentia dentro do mundo das flores.
Que elementos será que contribuíam para isso? Bem, pensando aqui, alguns elementos provavelmente contribuíram bastante para isso:
- Flower te ajuda a abstrair. Quando você senta e olha a paisagem, você inevitavelmente acaba pensando em tudo ao redor, em como o dia está bonito, o vento está fresco… Flower te dá a mesma sensação, de um vento suave no seu rosto num belo dia. Apesar dos belos gráficos, ainda é apenas grama e pétalas… e algo tão simples acaba sendo uma verdadeira isca para sua mente criativa.
- Flower é uma coisa só. Como já mencionei, nosso cérebro é preguiçoso – se ele tiver de lidar com milhares de informações, não vai sobrar “espaço” para ele criar algo muito complexo por si só. Mas Flower é apenas… flores. E vento. E tempo. E grama. E música. E todos esses elementos se juntam para formar uma única experiência. Compare isso com a maioria dos jogos “busque-o-objetivo,se-esconda,atire-até-matar,escolha-seus-powerups,ufa-cansei”… é muito mais fácil atrair nossa mente criativa se houver apenas uma coisa chamando sua atenção.
- Flower tem uma mensagem clara. É engraçado que um dos poucos jogos que não diz “faça isso”, “esse é seu objetivo” ou qualquer coisa parecida tenha uma das mensagens mais claras em um jogo. Você é uma flor, você é o vento… você ajuda uma flor. Eu me sentia bem ao terminar uma fase, uma sensação parecida com aquela que temos quando fazemos uma boa ação. Sim, eu tinha a sensação de ter participado de algo especial, de ter melhorado um pouco o mundo… ainda que apenas o mundo imaginário de Flower… aquele sorriso no rosto que temos quando lemos um livro e o personagem pelo qual estamos torcendo consegue o que quer.
E essas são os elementos mais específicos, talvez mais incomuns. Claro, nesse jogo em especial outros elementos ajudaram em muito nisso, especialmente a trilha sonora e a fluidez dos gráficos. Aliás, música deveria ser um assunto a parte nesse assunto, não é mesmo? Afinal, música é capaz de nos fazer imaginar muito, sem uma única palavra, sem nenhum outro estímulo que não o ritmo, os sons, os instrumentos. Sozinha, é quase um animal selvagem: livre, faz o que quiser. Você pode imaginar um campo de flores, outra pessoa pode ouvir a mesma música e imaginar um encontro, outra pode imaginar um evento de sua memória… com outros elementos, como um jogo, a música é aquele elemento que vai ajudar a ativar sua mente criativa, a realçar o jogo na sua memória.
Ainda assim, são elementos negligenciados. O foco em uma coisa só e a capacidade de deixar detalhes para a abstração do jogador parece faltar na maioria dos jogos comerciais, e a maioria dos desenvolvedores independentes não sabe ou não tem como chamar alguém realmente bom em música para cuidar da trilha sonora do jogo. Mas, claro, sempre existem exceções, aqueles jogos que realmente conseguem cativar nossa mente o suficiente para que nós realmente entremos nos jogos, e são esses jogos que deixam essa menina aqui mais feliz
(E é o tipo de jogo que eu quero desenvolver, mas do jeito que eu sou desorganizada isso sempre parece tão longe… *suspiro*)
(Yep, estou viva, em outro post eu explico o sumiço, :p Mas agora espero voltar a atualizar o blog mais frequentemente… “espero” sendo a palavra chave, claro :p)
