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Sobre Jogos Que Treinam o Cérebro e Pesquisas Mal Conduzidas

24 abr

Quando eu resolvo ler sobre alguma pesquisa, eu costumo fazê-lo com um olhar crítico, especialmente quando eu não concordo com o resultado ou quando as definições usadas na pesquisa são, no mínimo, estranhas.

Por isso eu acabei parando e lendo uma notícia no MeioBit Games: Jogos Não Melhoram Seu QI. E o Rodrigo Ghedin não tirou essa informação de qualquer lugar, não: essa notícia saiu na Discovery News, que por sua vez se baseou numa matéria da Nature. Ou seja, dificilmente se pode reclamar da fonte dessa notícia. Ainda assim…

Spock - Fascinating

Estranhas Definições

O título já me fez erguer as sobrancelhas – aumentar QI? E desde quando alguém aumenta o próprio QI? É algo que não costuma mudar muito  com o passar do tempo, até onde eu sei – existe uma certa variação até você se tornar adulto, e é por isso que os testes costumam perguntar a idade, mas depois que o cérebro já está “maduro” o seu QI não deveria se alterar de maneira significativa. Nós ficamos mais rápidos e aprendemos mais rápido algumas coisas porque nosso conhecimento aumentou, e eventualmente estamos treinados para usar nossa inteligência da melhor maneira.

Alguns poderiam argumentar que esse aumento na capacidade de usar a própria inteligência É um aumento de QI mas, para não entrarmos em um embate filosófico que não é o foco deste post, vamos concordar que ISSO não é medido por um teste de QI. O meu QI hoje provavelmente não é diferente do meu QI de quando eu ainda estava no ensino médio. Se fosse o caso, seria recomendado fazer um teste de QI regurlamente a cada dez anos para verificar mudanças, certo?

E mesmo que houvesse algo capaz de melhorar seu QI, certamente seria algo que demoraria para surtir efeito, já que conexões neurais não surgem da noite para o dia.

Então, como esperar uma mudança no QI com sessões de dez minutos diários durante duas semanas de um jogo para treinar sua mente? Seria o mesmo que esperar mudanças de QI depois de sessões de Sudoku, ou de Xadrez. Não sei quanto a vocês, mas para mim isso não faz muito sentido.

Propaganda Enganosa?

Eu pensei, talvez isso seja uma resposta à divulgação dos jogos – talvez eles digam que aumentam o QI de seus jogadores!

Resolvi procurar a capa de alguns dos jogos mais famosos de treinamento mental para o DS, Big Brain Academy e Brain Age, e de alguns outros jogos atrás de algo como “aumente seu QI” e não encontrei nada. Basicamente todos eles usam alguma variação de “treine seu cérebro”, “melhore sua memória” e coisas do gênero. Alguém menos capacitado poderia pensar que “treine seu cérebro” equivale a “aumente seu QI”, mas certamente não seria o caso para renomados cientistas, não é mesmo?

Big Brain Academy

O que mas chega perto de entrar nesse aspecto é o Big Brain Academy, ao medir o peso do cérebro dos jogadores e perguntar “quem tem o maior cérebro?”, mas ao evitar usar termos como QI, o jogo deixa claro que se trata de uma brincadeira, uma competição entre você e membros da sua família, mas que aumentar o peso do seu cérebro entre uma jogada e outra não quer dizer que você ficou mais inteligente, mas que você está mais bem treinado naquele jogo.

Mesmo que se fosse medir esse “treino”, ainda seria difícil fazer um bom teste para medir alguma melhora, ainda mais com tão pouco tempo diário. Talvez fosse melhor fazer um rápido teste antes e depois de cada jogatina, para ver se o jogo ao menos deixou a pessoa mais “mentalmente alerta”, mas mesmo isso deveria ser verificado, pois não tenho certeza de que isso seria um bom teste.

Mas testar melhorias no QI após jogar um jogo que não se propõe a isso é no mínimo ridículo e no máximo chega a cheirar a má vontade.

Problemas Estatísticos

Foram cerca de 11.000 pessoas que participaram da pesquisa, um número considerável. Mas como eles confessam que boa parte dos entrevistados via programas como “Bang Goes the Theory” você começa a perceber que esse espaço amostral não é tão representativo da população geral quanto deveria ser.

Não é preciso ser nenhum gênio para comparar jogos como esse a outras atividades intelectuais como xadrez e sudoku. Essas atividades tem em comum o fato de manterem seu cérebro ativo, alerta, enfim, bem treinado.

Digamos que eu não goste desse tipo de atividade. Digamos que eu seja uma velhinha aposentada. Fazer pequenas atividades mentais diariamente deve ter quase o mesmo efeito sobre meu cérebro que sair para caminhar um pouco todos os dias tem sobre o meu corpo, certo? Evita que os músculos do cérebro fiquem preguiçosos.

Agora, imaginemos que eu tenho trinta anos, estou no topo da minha carreira profissional, estou cheia de trabalho, cheia de desafios… o impacto de jogar um pouco de Big Brain Academy passa a ter tanto efeito sobre o meu cérebro quanto sair para uma pequena caminhada tem efeito sobre um atleta profissional que corre quilômetros todos os dias.

Percebem a diferença?

E, novamente, percebem a diferença entre fazer uma pesquisa com a população em geral e fazê-la com uma parte da população que provavelmente tem um nível maior de estudo?

E olha que eu nem mencionei que dez minutos diários no decorrer de seis semanas é um tempo mínimo para perceber muita diferença em termos de treinamento mental – compare com o treinamento físico, no qual se demora mais ou menos esse tempo para os efeitos COMEÇAREM a se tornar mais percepítiveis.

Convenhamos, você não precisa nem ter passado por Estatística I para pensar que algo não cheira bem nessa pesquisa.

Os Jogos de Treinamento Mental São Realmente Bons, Então?

Olha, eu nunca fui uma grande partidária desses jogos, embora goste de jogá-los de vez em quando. Se eles treinam a mente? Bom, lembram da comparação que eu acabei de fazer ali em cima? Eu faço engenharia, eu respiro cálculo e desafios no café da manhã. Para mim, jogos como Brain Age são até relaxantes. Desconfio que seja o caso de boa parte das pessoas que lêem esse blog: estamos na nossa idade mais produtiva, cheia de desafios, novas conquistas… para pessoas como nós, o impacto de um jogo como esse é o mesmo de um jogo de Sudoku, de Xadrez… é mais um passatempo do que qualquer outra coisa.

Mas eu creio que jogos como esse sejam especialmente úteis para crianças, cujo cérebro ainda está em formação, e para pessoas já aposentadas que às vezes não tem mais tantos estímulos mentais no dia-a-dia. E, se elas gostam desses jogos e sentem mais vontade de jogá-los do que fazer Sudoku ou jogar Xadrez, então, por que não? Eu acho que um dos grandes diferenciais dos jogos é realmente isso, conseguir unir o útil ao agradável.

Mas Sabem O Que Realmente Me Frustra…

É pensar que eles poderiam ter pesquisado algo que poderia ser mais revelador sobre a natureza desses jogos e seu impacto sobre nossas mentes. Um exemplo? Pesquisar se existe diferença entre jogar esses jogos ou jogar um jogo qualquer – desconfio que esses jogos ajudem a treinar suas habilidades matemáticas, enquanto que outros jogos treinam reflexos e pensamento rápido, o que me faz pensar que o ideal é um pouco dos dois ;)

E… é isso, amiguinhos. Aprendam a desconfiar de pesquisas. Existem algumas muito boas por aí, mas outras…

Vida Longa e PrósperaVida Longa e Próspera, amigos. Nós vemos no próximo post ;)


 

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  1. Arnie

    abril 24, 2010 at 9:39 pm

    Costumo estar de acordo com você. Mas desta vez, eu discordo em varios pontos.
    Cito da notícia da Discovery:
    "More than 8,600 people aged 18 to 60 were asked to play online brain games designed by the researchers to improve their memory, reasoning and other skills for at least 10 minutes a day, three times a week."
    Pode ser que os jogos não afirmem de forma explícita aumentar o QI, mas afirmam agilizar uma serie de processos mentais, entre eles a memória, e que são testados nos testes de QI(pelo menos assim foi nos testes que eu fiz). Não deveríamos esperar que as pessoas que jogaram 6 semanas esses jogos tivessem um desempenho maior nas questões que envolvem o uso da memória? Uma crítica ao estudo é que 6 semanas é pouco tempo para ver uma mudança em um test de QI. E volto a citar a noticia do Discovery:
    "On some sections of the test, the people who surfed the Net scored higher than those playing the games."
    Isto não invalida esse argumento de que é pouco tempo? Se a atividade de controle é capaz de melhorar o desempenho no teste, os jogos que treinam o cérebro deveriam oferecer um aumento igual ou maior.
    Apesar de que eles não falem de forma explícita que aumentam o QI ou nos deixam mais inteligentes, na minha opinião tratam de transmitir essa impressão. Vou citar o Brain Training que foi um dos primeiro em explorar essas terras. Parece que o Dr. Kawashima(neurocientista) participou de alguma forma na criação do jogo, isso não te transmite mas confiança no produto, não é a mesma coisa que aquelas propagandas em que um dentista fala de uma pasta de dente ou uma escova? Outra coisa que me incomoda é o valor chamado "idade mental" que obtemos ao final de uma atividade.Não esta fundamentado científicamente, é só ver a propaganda espanhola do jogo e ler as letras pequenas:http://www.youtube.com/watch?v=SE6q08WEQqM
    Agora, na versão americana do anuncio não aparece nenhuma aclaração falando que "idade mental" é algo que foi inventado para o jogo:http://www.youtube.com/watch?v=SttkU-8UWQE

     
    • Cindy_Dalfovo

      abril 25, 2010 at 3:02 am

      "Não deveríamos esperar que as pessoas que jogaram 6 semanas esses jogos tivessem um desempenho maior nas questões que envolvem o uso da memória?"

      Não necessariamente. Esses jogos são treinos leves, devem afetar pouco em tão pouco tempo. Em comparação, Xadrez e Go são excelentes para treinar memória e análise, mas 10 minutos diários durante 6 semanas fariam alguma diferença? Difícil, eu acho.

      "On some sections of the test, the people who surfed the Net scored higher than those playing the games."
      Isto não invalida esse argumento de que é pouco tempo?

      Não acho. Primeiro, não mencionaram em quais seções o desempenho foi maior. Segundo, o grupo de controle era menor. Isso por si só não colocaria dúvida, mas como eu duvido do resto do estudo para mim fica dificil olhar para esse dado e não ficar cética.

      ". Parece que o Dr. Kawashima(neurocientista) participou de alguma forma na criação do jogo, isso não te transmite mais confiança no produto"

      Sim, transmite. De que os jogos são desenvolvidos para treinarem seu cérebro em atividades mentais básicas. Mas, até aqui, não há prova contundente de que eles não fazem isso.

      "Outra coisa que me incomoda é o valor chamado "idade mental" que obtemos ao final de uma atividade."

      Esse termo eu não lembrava e, de fato, incomoda. Devo concordar que é um marketing infeliz, mas, nessa questão, isso não afeta o fato de que, a meu ver, o estudo estava tentando medir melhoras em algo que não é melhorado tao rapidamente e que não foi explicitamente prometido pelos jogos (ou pela maioria deles).

       
      • Arnie

        abril 27, 2010 at 11:50 pm

        Eu estive lendo a noticia que foi publicada na Nature, onde aparecem vários argumentos novos a favor e em contra. Além do mais, essa noticia é muito mais completa e rigorosa que a da Discovery. Também comecei a ler resultados do estudo(não terminei porque tenho que refrescar alguns conceitos de estatística). O link para a noticia da Nature,http://www.nature.com/news/2010/100420/full/46411... e aí você pode encontrar um link ao "paper".
        Vamos por partes como falou Jack, o Estripador. Sobre o tempo de duração de estudo. Essa é a principal crítica feita ao estudo, inclusive feita por empresas que fazem esses jogos. Realmente, é uma das poucas críticas que as produtoras podem fazer sem se prejudicar(argumentar que o jogo só funciona com crianças ou idosos restringe bastante os possíveis consumidores). E com isso retomo o tema de propaganda enganosa, se o produto não garante realmente nada, então por que as empresas se dão por aludidas? Oras, o resultados obtidos no estudo não são os que exatamente deveríamos de esperar de um produto que não garante nada? Ademais disso, algo que não saiu em algumas noticias é que os participantes podiam praticar mais se assim eles desejavam. E realmente, praticaram mais, a média de seções é de 24 e não 18. Seria interessante ver quanto tempo é realmente necessário para observar uma melhora no desempenho de acordo com as empresas? Essa seria realmente uma crítica muito mais produtiva e que se poderia aplicar ao desenho de futuros estudos.
        Tenho que reconhecer que você tem razão com respeito a melhora do grupo de controle. Não é uma melhora significativa, mas pelo jeito o redator da Discovery não se tocou. O que não posso estar de acordo com você é sobre tamanho de mostra. O tamanho de mostra para cada um dos grupos é bastante grande. Se você não acredita, tira o pó de um livro de estatística e olhe a fórmula para calcular o tamanho de uma mostra. Se você esta com preguiça para fazer contas, um estudo favorável aos "brain-trainers" só contou com 487 pessoas (nessas 487 pessoas esta incluído o grupo de controle).
        Para terminar, existem poucos estudos a favor dos "brain-trainers" e aparentemente estes estudos só se aplicam a pessoas de mais de 65 anos. Nestas condições(com poucos estudos em ambos lados), eu acho que uma autêntica atitude cética é a de duvidar de quem afirma algo antes do que duvidar dos que negam. A responsabilidade de provar algo deve ser de quem afirma. Se não fosse assim, perderíamos muito tempo provando a inexistência de fadas, anões, e outros…
        Sinto muito por ser tão extenso, principalmente vendo que você tem 46 comentários em um outro post.

         
  2. @andremonsev

    abril 25, 2010 at 12:57 pm

    Quanto às pesquisas, o meu sonho é fazer uma pesquisa sobre a efetividade de pesquisas. Não, sério mesmo, pq veja bem: hoje sai uma pesquisa que fala que tomar café, mesmo com açúcar, em uma quantidade não muito alta, faz bem. Mas, amanhã, sai uma pesquisa dizendo que qualquer coisa que contenha cafeína faz um mal extremo ao organismo.
    Sei que, nesse caso aí, a situação é diferente. Mas ainda sim, eu tenho cada vez mais ignorado ESSE tipo de pesquisa – que acaba "revelando" algo sobre o organismo ou a mente.
    Acho que um dia ainda chegarão na conclusão mais idiota que se poderia chegar, aquela conclusão de que, se tudo isso fosse um filme, seria o pior final possível, daqueles que explica tudo com "foi apenas um sonho". Que conclusão seria? "Todo mundo é diferente" euheuehuhe :P .

     
  3. Cindy_Dalfovo

    abril 28, 2010 at 12:30 am

    Eu achei que o artigo da Nature não estaria disponível (por algum motivo achei que seria daquelas revistas de artigos pagos) mas agora estou arrependida. A diferença na cobertura do assunto é gritante.

    Para começo de conversa, algo que a meu ver era gritante na matéria da Discovery era todo aquele blablabla de "aumentar QI", algo que na matéria da Nature é sequer citado! Lendo o artigo da Nature dá para acreditar que, realmente, parece ter sido um estudo sério, embora com algumas características que podem ser criticadas, como a origem do grupo de controle.

    Isso é para eu aprender de uma vez a ir na fonte da notícia, e não ler em "sites agregadores de notícias"… a queda de qualidade é grotesca, especialmente nesse caso. Sério, se eu tivesse lido esse artigo antes eu provavelmente teria feito um post bem menor porque teria bem menos a reclamar.

    De qualquer maneira, obrigada pelo comentário, e de forma alguma peça desculpas! Adoro comentários grandes e que acrescentam à conversa, como o seu!