Por que Demon’s Souls é tão difícil? (Uma análise de uma nova masoquista)

21 fev



Demon's Souls

Demon's Souls: você sabe que o jogo é difícil quando você está MORTO na capa



Se você já ouviu falar de Demon’s Souls, você também já deve ter ouvido que ele é um dos jogos mais difíceis dos útimos tempos. Eu não sei se eu diria que ele é o mais difícil, mas ele é certamente o jogo mais sacana, sádico e destruidor de moral que eu já joguei.

Veja bem, na maior parte do tempo não existem pulos que devem ser executados com precisão absurda, ou puzzles diabólicos ou qualquer coisa do gênero. Mas nenhum outro jogo te pune tanto por errar quanto Demon’s Souls. Se no novo Prince of Persia a princesa não te deixa nem curtir uma queda até a morte antes de jogar de volta para onde você estava, em Demon’s Souls há centenas de buracos e lugares apertados nos quais você pode cair… e acredite, você VAI cair, seja por ter se esquecido que naquela região escura havia um buraco ou por ter recuado para fugir de um inimigo e cair direto da plataforma na qual se encontrava.

Hoje em dia a maioria dos jogos praticamente “te leva pela mão”, ao ponto de algumas vezes ser simplesmente *FRUSTRANTE*, como em Prince of Persia. Em outros jogos você pode apertar um botão e ver um linha mostrando a direção na qual você deve ir. E, na maior parte dos casos, essas facilidades acrescentam ao jogo – quer dizer, eu particularmente ODEIO ficar perdida em um mapa – eu gosto de destruir monstros, resolver puzzles, mas ver o mesmo corredor pela quinquagésima vez? Não, obrigada. Mas isso pode acabar causando um certo cansaço, e é por isso que Demon’s Souls é uma experiência tão revigorante – ele não te leva pela mão. Pelo contrário, na realidade: ele te solta num mundo inóspito depois de te ensinar como atacar e bloquear e diz “te vira!”

Quando o Jogo Ri da Sua Cara

A parte mais importante do “tutorial” do jogo não é aprender os movimentos básicos do jogo, como atacar, bloquear, esquivar, rolar e correr, e sim a sua última lição, apresentada na forma de um monstro gigante e feio QUE VAI TE MATAR COM UM SÓ GOLPE.

Quando você chega no Nexus, você chega na forma de alma – sim, você REALMENTE morreu mas o Nexus prendeu sua alma.

Não, sério, deixa eu repetir: VOCÊ COMEÇA O MALDITO JOGO COMO ALMA PENADA!

O que quer dizer, basicamente… que você tem metade da vida que você tem quando está com o seu corpo. Sim, claro, porque começar a jogar já não era difícil o suficiente, então eles aproveitam  e tiram metade da sua vida. E no início, mesmo o mais furreba dos inimigos te mata com dois ou três golpes se você marcar bobeira.

E você vai estar caminhando distraidamente e ser atacado por trás até aprender a andar devagar, com o escudo levantado e verificando cada corredor.

Aí, você eventualmente vai conseguir chegar no primeiro chefão, e com um pouco de sorte e observação você tenha observado que ele é extremamente sensível a fogo – e, todo feliz, você consegue derrotar o primeir chefão. Você recupera seu corpo e volta a ter 100% da sua vida. Bacana, você finalmente vai poder subir de nível usando as almas que você coletou no decorrer da fase.

Depois de subir uma infinidade de escadas, falar com uma estátua (?), voltar lá para baixo e falar com a Maiden in Black.

 


Maiden in Black

Maiden in Black, a maldita que te ajuda a evoluir no jogo


Dica: não pule lá de cima para chegar mais rápido na Maiden in Black – você VAI morrer.

Aí você fala com a Maiden in Black e começa a evoluir seus atributos. Cada nível te deixa evoluir um ponto de atributo, e cada nível custa mais do que o anterior.

Ou seja, verifique seus atributos com cuidado, para não estar mais longe no jogo e precisar de muitas almas para evoluir atributos necessários para o seu personagem.

Depois de matar o primeiro chefão você pode escolher qual o próximo mundo para o qual você irá: existem cinco mundos distindos, cada um acessado a partir de um portal no Nexus.

Mas qual escolher? Qual o mais fácil? Qual o melhor para evoluir o seu personagem? O jogo, obviamente, não te dá pista nenhuma, deixando você livre para escolher qualquer caminho. Depois de algumas inúmeras mortes, você acaba percebendo que o primeiro mundo é o melhor para coletar itens de cura, o segundo é melhor para recolher minérios necessários para evoluir suas armas e escudos, o terceiro tem vários itens de recuperação de MP, o quarto é o melhor para recolher almas e o quinto… não sei, não gosto do quinto mundo, ele é francamente um dos mais sacanas em um jogo já sádico por natureza: poucos itens, poucas almas e uma infinidade de buracos para você cair, sem falar nos ratos que te infectam com a peste.

Sinceramente, eu não costumo consultar guias online para jogos (salvo em casos específicos, como encontrar todos os tesouros em Uncharted :p), mas com Demon’s Souls… bom, eu costumo deixar a wiki sempre aberta ali numa das abas. Não tanto para escolher os mundos, mas para descobrir sobre como melhorar equipamentos, quais as diferenças de cada equipamento, essas coisas. E para gritar “Mor, vê como eu mato esse demônio maldito!” quando eu empaco em um chefão.

Você Evolui Junto com Seu Personagem

Na maioria dos RPGs, melhorar para enfrentar um chefão quer dizer “ande por aí, aperte A um zilhão de vezes para melhorar seus atributos”. Em Demon’s Souls não é bem assim: embora seja importante melhorar seus atributos, equipamentos e armas, VOCÊ também precisa melhorar – aprender a lutar com os mais diversos tipos de arma, já que você logo vai perceber que se especializar numa única área do jogo não é muito aconselhável, já que certas partes ficam muito mais fáceis com magia, outros inimigos você mata a distância com o arco, e mesmo com as armas você pode ter armas com diferentes focos – a arma que eu uso na fase da mina, na qual os inimigos tem resistência a fogo, não é a mesma que eu uso em boa parte das outras fases: minha espada imbuída com fogo (ela é de estimação :3).

Você aprende a não atrair muitos inimigos para cima de você, já que se defender de todos ao mesmo tempo pode ser uma tarefa complicada, ainda mais quando cada defesa com seu escudo tira um pouco da sua Stamina, e sem Stamina você não ataca, não corre, não defende… ela recupera rapidamente, mas às vezes não rápido o suficiente. Se é que vocês me entendem.

Também aprende a andar com cuidado, a desviar dos ataques, a esperar o momento certo para desferir seu ataque letal.

E quando você aprende a jogar e consegue matar aquele inimigo que te humilhou horas atrás com dois ou três golpes… ah, isso que é uma experiência boa!

hope e o machado de fogo

Meu namorado feliz da vida com seu machado de dragão se prepara para atacar mais um inimigo...

Eu acho que é justamente isso que torna Demon’s Souls tão bom: você vai morrer dezenas, centenas e até milhares de vezes, mas cada vez você aprende um pouco mais sobre a fase, sobre os inimigos. Você aprende a lidar com as pequenas “sacanagens” do jogo: ele não tem pause? Tudo bem, se coloque num lugar que você já “limpou”, ele não é um jogo no qual seja comum inimigos aparecerem do nada quando você está parado.

Ao morrer, suas “almas” coletadas e que ainda não foram gastas ficam numa poça de sangue, te dando uma segunda chance – você pode chegar até aquele ponto da fase novamente e recuperar suas almas. Mas se você morrer novamente… bem, adeus para aquelas almas. Eu já perdi mil, dez mil, perdi coisa de 14 mil almas ainda hoje. Acontece. Mas você se acostuma, e se prepara para novamente ir pela fase, recuperar suas almas.

Almas são os itens mais importantes do jogo, já que elas são a “moeda” com a qual você compra itens dos vendedores, e também as utiliza para subir de nível, então é sempre um pouco triste ver aquelas milhares de almas indo embora para sempre. Ao mesmo tempo, existe algo mais importante no jogo: a experiência que VOCÊ adquire, de saber onde estão os inimigos, qual a melhor tática para matá-los, onde estão as armadilhas, os buracos… eu acho que muitos RPGs poderiam aprender com isso de Demon’s Souls: a fazer com que o jogador se sinto um jogador melhor, junto com seu personagem.

Os “Outros”

Falei, falei e ainda não mencionei o componente multiplayer do jogo.

O jogo realmente não te dá dicas – ele deixa para os outros jogadores esse papel. Explico: você pode deixar mensagens para os outros jogadores que ficam no chão, podendo avisar de armadilhas, fraquezas de inimigos, etc, e pode ter suas mensagens recomendadas pelos outros jogadores. Então, algumas partes do jogo você vai ter uma “mãozinha” se estiver online, embora o modo offline e online do jogo sejam essencialmente os mesmos. Você também pode tocar poças de sangue para ver como outros jogadores morreram, e pode ver “vultos” brancos de outros jogadores passeando pelas mesmas fases que você.

Ao mesmo tempo, se você estiver com seu corpo, outros jogadores podem invadir seu mundo para tentar te matar e, com isso, recuperarem seu jogo – e para contrabalancear essa dificuldade adicional em se ter o corpo, você pode encontrar outros jogadores em forma de alma querendo lhe ajudar – eles se oferecem para vir ao seu mundo e se você os invocar, vocês podem percorrer a fase juntos. Se vocês matarem um chefão, o jogador que veio te ajudar recupera o seu corpo.

Enfim, o componente multiplayer do jogo é realmente simplório, mas eficiente e interessante.

Agora, com licença que eu vou ali avisar meu namorado que está na minha vez de jogar Demon’s Souls…

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