Perceba: não se trata de uma pergunta, mas uma afirmação. Videogames SÃO arte – uma arte imatura, ainda tola e frívola, mas não menos arte por conta disso. “Ah, mas se faz com interesses comerciais…” – o que, e então? Exclui-mos o cinema do mundo da arte também. “Ah, você chamaria GTA de arte?” – ué, e você por acaso chamaria as músicas da Britney Spears de “arte”? E não é a música uma arte?
Videogames SÃO uma arte – e justamente aí jaz o problema. Por mais rápido que avance em gráficos e física avançada, os fatores que levam a um resultado artístico tem evoluído lentamente. Os conflitos da alma que resultam em arte não seguem a lei de Moore, infelizmente.
Jogos eletrônicos constituem a arte que deveria ser a responsável por derrubar, definitivamente, a quarta parede. E você pode imaginar se não é justamente isso o que ocorre. Não, a parede não está derrubada, muito pelo contrário – nós nos tornamos a quarta parede.
Se isso lhe parece abstrato, deixe-me falar sobre o livro que li no final de semana: Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Um pequeno clássico da ficção científica, que os mais aficcionados pelo tema certamente devem conhecer. Comprei a edição “popular”, isto é, papel jornal, formato pequeno:

Tratando de um futuro sombrio que já ocorre, o livro mostra uma sociedade que queima seus livros. Não que precisasse: as pessoas não possuem mais interesse algum em lê-los. Em determinado momento, a esposa-estúpida se encontra na sala de estar, rodeada por três telões, um em cada parede. Passa o dia inteiro ali, e ainda insiste para que Montag consiga logo dinheiro para a quarta parede – desta maneira, estaria ainda mais perto da sua “família”, os programas que a tratam como se a conhecessem. Os diálogos de tais programas são fascinantes, no sentido de que não dizem absolutamente NADA.
É tanta tecnologia que tais telões não trazem coisa alguma que possa ser vagamente associada a “arte”. Exploram seus sentidos, com belas visões, fantásticos fogos de artíficio, uma “interação” sem igual: os participantes do programa a chamam pelo nome, como se ela de fato fizesse parte da família!
Tal parece ser o estado atual dos jogos: uma brincadeira de fogos de artíficio, uma falsa interação para nos deixar extasiados. Mas há um pequeno problema em extasiar os sentidos: eles são perversos e, quanto mais bem alimentados eles estão, menos eles deixam nossa alma se exercitar. Não digo alma no sentido espiritual/religioso: imagine “inconsciente” ou seu “eu interior” se preferir. Seja como for, sentidos e alma não andam lado a lado, como deveriam. Os sentidos, pelo contrário, trancarão nossa alma em um lugar escuro e jogarão a chave fora se tiverem a oportunidade.
A razão? Nossa alma traz inquietação. Dor. Questionamentos. Nossa alma subjuga nossos sentidos, transforma canção em saudade, a dor física em redenção. Mostra aos sentidos quão pequenos e limitados eles são.
Duvida? Lembre-se de uma forma de arte que o marcou, que o inquietou. Quantos jogos o inquietaram como 1984, Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451, e isso apenas para mencionar a ficção científica pessimista? Algumas músicas me dão vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo, como The Heart Asks Pleasure First. Quantos jogos me trouxeram esse tipo de emoção, e ainda em tão pouco tempo?
Quantas vezes você jogou um jogo e, ao terminá-lo, teve a sensação de que não era mais a mesma pessoa de antes de começa-lo? A sensação de que algo naquele jogo, de alguma maneira, havia transformado você – havia trazido questionamentos, emoção, inquietação.

Não digo que seja necessária tal inquietação para que exista arte, mas eu acredito que isso seja uma boa maneira de medir a maturidade de uma arte. Okami é belo, lindíssimo – mas não me mudou. Não me inquietou. Não consigo pensar em um jogo que tenha me feito ficar olhando para o teto, pensativa – “digerindo” lentamente, “saboreando”… me transformando. Zelda: Ocarina of Time me marcou, mas não me transformou de maneira significativa – no máximo, introduziu um novo patamar contra o qual eu pesaria todos os outros jogos que eu viria a jogar. E isso é bom, não é mesmo? É arte, não é? Quando você se sente frustrado quando Sephiroth assassina Aerith, isso é arte, não é? Ainda assim, terrivelmente imatura.
Há um “Cidadão Kane” dos jogos? Uma nova sinfonia? Um “Crime e Castigo”, um “Os Miseráveis”, um “A Metamorfose”? Ainda assim, é justo cobrar tais obrar? Quantos anos têm os videogames? Quantos anos tem todas as outras artes? Ainda assim, como ela irá se tornar madura se ninguém a questionar? Ninguém lhe disser “você pode fazer mais do que isso”?
Indo mais além: como isso pode ser atingido? Voltando à dualidade sentidos x alma, como lidar com a explosão de sentidos em um jogo de videogame? Como fazer com que tais estímulos não ocultem nossa alma? Para mim, os livros constituem a forma de arte mais madura da humanidade, e a música a mais universal. Será coincidência o fato dessas formas de arte pouco animarem nossos sentidos? Sim, a música é capaz de extasiar nossa audição, mas os outros quatro sentidos são pouco animados, e a audição sozinha é frágil e sonhadora, é incapaz de trancafiar nosso alma – não é a líder da gangue, como a visão e o tato.
Será que a solução seria voltar ao Atari? Ainda assim, o cinema não tem atingido resultados fantásticos? O Labirinto do Fauno não é simplesmente maravilhoso, não fica na sua mente, não lhe traz um sorriso melancólico ao lembrar-se dele? E não é cheio de cores, música? E o segredo não está, justamente, no fato de que nossa alma é muito mais estimulada de que nossos sentidos? E isso não lhe dá forças para que ela subjugue nossos sentidos, faça-os trabalharem para ela e não contra ela?
É isso que eu quero nos jogos. Não creio que eu venha a trabalhar com jogos – não que eu não me interesse, mas eu também gosto de engenharia, de cachorros e vou começar a tocar teclado/piano… sem falar na minha outra grande paixão: escrever. Com tantos interesses, não sei aonde a vida vai me levar. Mas se ela me levar por esse caminho, vocês podem ter certeza de que é com esse tipo de coisa que eu vou virar a noite insône, tentando fazer a minha parte para amadurecer essa maravilhosa forma de arte.
Enquanto esse tempo não chega, vou divagando neste blog…

lslima
novembro 11, 2008 at 6:57 pm
O texto é interessante. E estou de acordo com quase tudo. Mas para se chamar algo de arte, é necessário mais que comoção, mudança, convulsões entre a matéria e o espírito. A arte possui um espaço próprio de produção e fruição, e os games não adentraram estes espaços. Mesmo o cinema, música ou literatura por si só não são arte. O que não reduz o valor expressivo dos games. Os jogos,de modo geral, são produtos da indústria cultural, não são produtos de arte. Existem sim jogos artísticos, mas ser tomado como midia não é o decisivo na consideração de algo ser arte ou não. Como referência no assunto cito o sociólogo/filósofo Pierre Bourdieu, que faz uma análise da industria cultural em relação à produção de arte. Estou trabalhando num texto com a mesma questão. Espero em breve trocar mais idéias sobre o assunto.
lslima
novembro 12, 2008 at 12:57 am
O texto é interessante. E estou de acordo com quase tudo. Mas para se chamar algo de arte, é necessário mais que comoção, mudança, convulsões entre a matéria e o espírito. A arte possui um espaço próprio de produção e fruição, e os games não adentraram estes espaços. Mesmo o cinema, música ou literatura por si só não são arte. O que não reduz o valor expressivo dos games. Os jogos,de modo geral, são produtos da indústria cultural, não são produtos de arte. Existem sim jogos artísticos, mas ser tomado como midia não é o decisivo na consideração de algo ser arte ou não. Como referência no assunto cito o sociólogo/filósofo Pierre Bourdieu, que faz uma análise da industria cultural em relação à produção de arte. Estou trabalhando num texto com a mesma questão. Espero em breve trocar mais idéias sobre o assunto.
miwi
novembro 12, 2008 at 4:24 am
avise-me quando escrever tal texto
miwi
novembro 12, 2008 at 10:24 am
avise-me quando escrever tal texto
Gilberto Tensai
novembro 12, 2008 at 3:21 pm
Muito bom o texto moça.
Isso me lembra um trabalho que fiz para a facul sobre o tema.Tentei classificar Shadow of the Colossus e Ico na categoria de Game como arte.Minha prof. aceitou mas com um pé atrás rsrsrs.
Esse assunto ainda tem muito o q amadurecermas tb considero alguns poucos games “arte”.
Cido Coelho
novembro 12, 2008 at 7:17 pm
Moça!
Curti seu blog! Acabei de aceitar vc no Twitter do NoReset! Vamos trocar links de blogs! ^^
Valeu!
Bjos
Cido
NoReset – http://www.noreset.net
Gilberto Tensai
novembro 12, 2008 at 9:21 pm
Muito bom o texto moça.
Isso me lembra um trabalho que fiz para a facul sobre o tema.Tentei classificar Shadow of the Colossus e Ico na categoria de Game como arte.Minha prof. aceitou mas com um pé atrás rsrsrs.
Esse assunto ainda tem muito o q amadurecermas tb considero alguns poucos games “arte”.
Cido Coelho
novembro 13, 2008 at 1:17 am
Moça!
Curti seu blog! Acabei de aceitar vc no Twitter do NoReset! Vamos trocar links de blogs! ^^
Valeu!
Bjos
Cido
NoReset – http://www.noreset.net
miwi
novembro 13, 2008 at 1:01 pm
Já te adicionei no meu blogroll!
AyPyCy
novembro 13, 2008 at 6:39 pm
Muito bom o texto.
Acho (eu+meio mundo) que arte é algo que comove e emociona, conseguimos isso com música, cinema, pintura… mas games não (salvo raríssimas excessões).
Uma das minhas teorias para isso é que dificilmente nos emocionamos quando fazemos algo, exceto que seja algo muito forte, mas no cotidiano é dificil nos emocionar.
Como nos games sempre “fazemos algo”, ou seja, estamos imersos ou envolvidos com a ação, acabamos não nos emocionando, assim como não nos emocionamos no dia-a-dia com coisas cotidianas. Sei lá, acho que quando o cerebro não esta passivo, apenas recebendo informações, mas esta ocupado na execução de algo, ele deve limitar nossa emoção.
Mas é um assunto muito interessante.
miwi
novembro 13, 2008 at 7:01 pm
Já te adicionei no meu blogroll!
AyPyCy
novembro 14, 2008 at 12:39 am
Muito bom o texto.
Acho (eu+meio mundo) que arte é algo que comove e emociona, conseguimos isso com música, cinema, pintura… mas games não (salvo raríssimas excessões).
Uma das minhas teorias para isso é que dificilmente nos emocionamos quando fazemos algo, exceto que seja algo muito forte, mas no cotidiano é dificil nos emocionar.
Como nos games sempre “fazemos algo”, ou seja, estamos imersos ou envolvidos com a ação, acabamos não nos emocionando, assim como não nos emocionamos no dia-a-dia com coisas cotidianas. Sei lá, acho que quando o cerebro não esta passivo, apenas recebendo informações, mas esta ocupado na execução de algo, ele deve limitar nossa emoção.
Mas é um assunto muito interessante.
dipnlik
novembro 14, 2008 at 5:41 am
Eu acho que já temos grandes clássicos do videogame sim. Ainda não joguei Okami mas já vi muita gente falando que é arte basicamente porque é bonito, daí não concordo. Agora se pegar um Final Fantasy 6 ou um Chrono Trigger por exemplo, não dá pra dizer que não são maduros o suficiente para não serem considerados clássicos.
dipnlik
novembro 14, 2008 at 11:41 am
Eu acho que já temos grandes clássicos do videogame sim. Ainda não joguei Okami mas já vi muita gente falando que é arte basicamente porque é bonito, daí não concordo. Agora se pegar um Final Fantasy 6 ou um Chrono Trigger por exemplo, não dá pra dizer que não são maduros o suficiente para não serem considerados clássicos.
Filippe Barreto
março 17, 2009 at 11:45 pm
Finalmente alguém falando minha língua, eu acho.
Na minha visão, os games, como verdadeiras obras de arte interativa precisam abandonar os clichês e arquétipos hoje vigentes. O problema disso é que ao fazê-lo, simplesmente será necessário reinventar a linguagem pois precisaria-se abandonar todos os conceitos que foram criados ao longo do pouco tempo de vida da mídia desde seus primórdios e que nesse momento a limitam.
O que existe hoje é a perpetuação do mais do mesmo, o medo de ousar, de inovar de CRIAR de fato algo novo. Isso acontece pois a indústria é muito fechada e amparada numa bolha econômica que depende do lucro e crescimento baseada em altos custos para se manter viável. Isso engessa as possibilidades e castra o potencial maravilhoso e, por que não, infinito que uma mídia interativa possui. Enquanto games forem sinônimos de apenas jogos com necessidade de haver desafio e competição, a arte não poderá emergir em obras que ignoram que a vida é muito mais que somar pontos ou zerar uma narrativa baseada em obstáculos a serem superados.
Por isso eu acredito que no atual cenário, o nascimento de uma obra com essa desconstrução estrutural, tem mais facilidade de vir da cena independente.
Parabéns pelo post, ele é tão profundo que confesso ainda não ter assimilado plenamente tudo que foi escrito e isso é ótimo.
Tocando piano, sabendo escrever, programar e ainda tendo sensibilidade, você tem tudo para ser uma das pioneiras na criação de conteúdo verdadeiramente relevante nessa indústria. E pelo ideal e vontade que vi nesse post, torço muito por que isso aconteça.
Por favor Cindy, não desista pelos motivos que você disse, essa mídia é tão maravilhosa por causa disso, tudo que você falou pode ser feito nessa ferramenta onde tudo converge magicamente.
Filippe Barreto
março 18, 2009 at 3:45 am
Finalmente alguém falando minha língua, eu acho.
Na minha visão, os games, como verdadeiras obras de arte interativa precisam abandonar os clichês e arquétipos hoje vigentes. O problema disso é que ao fazê-lo, simplesmente será necessário reinventar a linguagem pois precisaria-se abandonar todos os conceitos que foram criados ao longo do pouco tempo de vida da mídia desde seus primórdios e que nesse momento a limitam.
O que existe hoje é a perpetuação do mais do mesmo, o medo de ousar, de inovar de CRIAR de fato algo novo. Isso acontece pois a indústria é muito fechada e amparada numa bolha econômica que depende do lucro e crescimento baseada em altos custos para se manter viável. Isso engessa as possibilidades e castra o potencial maravilhoso e, por que não, infinito que uma mídia interativa possui. Enquanto games forem sinônimos de apenas jogos com necessidade de haver desafio e competição, a arte não poderá emergir em obras que ignoram que a vida é muito mais que somar pontos ou zerar uma narrativa baseada em obstáculos a serem superados.
Por isso eu acredito que no atual cenário, o nascimento de uma obra com essa desconstrução estrutural, tem mais facilidade de vir da cena independente.
Parabéns pelo post, ele é tão profundo que confesso ainda não ter assimilado plenamente tudo que foi escrito e isso é ótimo.
Tocando piano, sabendo escrever, programar e ainda tendo sensibilidade, você tem tudo para ser uma das pioneiras na criação de conteúdo verdadeiramente relevante nessa indústria. E pelo ideal e vontade que vi nesse post, torço muito por que isso aconteça.
Por favor Cindy, não desista pelos motivos que você disse, essa mídia é tão maravilhosa por causa disso, tudo que você falou pode ser feito nessa ferramenta onde tudo converge magicamente.
namekuseijin
março 18, 2009 at 3:50 pm
Arte pra mim nos consoles até hoje:
Kenseiden
Super Metroid
Sonic the Hedgehog
Final Fantasy VI e VII
Metal Gear Solid
Ocarina of Time
Star Fox (SNES)
Não é arte literária, mas definitivamente arte, capaz de emocionar e fazer pensar. A interatividade faz toda a diferença. Mesmo Sonic, essencialmente um pinball em forma de jogo de plataforma, com sua mistura de gameplay, gráficos estilizados e música light é uma experiência saborosa e única.
Star Fox no SNES, com gráficos podres e coisa e tal, ainda é muito mais impactante do que as sequels. Por que? Porque você podia terminar o jogo com todos seus parceiros mortos. E apesar dos gráficos primitivos, as mortes dos parceiros são bastante impactantes e sua falta é sentida no decorrer do jogo. Isso é arte pra mim.
Mas, eu diria que algo mais próximo de arte literária e também mais maduro pode ser encontrado nos interactive-fictions, como:
http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch...
http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch...
ou
http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch...
namekuseijin
março 18, 2009 at 7:50 pm
Arte pra mim nos consoles até hoje:
Kenseiden
Super Metroid
Sonic the Hedgehog
Final Fantasy VI e VII
Metal Gear Solid
Ocarina of Time
Star Fox (SNES)
Não é arte literária, mas definitivamente arte, capaz de emocionar e fazer pensar. A interatividade faz toda a diferença. Mesmo Sonic, essencialmente um pinball em forma de jogo de plataforma, com sua mistura de gameplay, gráficos estilizados e música light é uma experiência saborosa e única.
Star Fox no SNES, com gráficos podres e coisa e tal, ainda é muito mais impactante do que as sequels. Por que? Porque você podia terminar o jogo com todos seus parceiros mortos. E apesar dos gráficos primitivos, as mortes dos parceiros são bastante impactantes e sua falta é sentida no decorrer do jogo. Isso é arte pra mim.
Mas, eu diria que algo mais próximo de arte literária e também mais maduro pode ser encontrado nos interactive-fictions, como:
http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch...
http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch...
ou
http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch...