Essa semana eu envelheci uns 10 anos. Não, eu não passei a aparentar ter 25 anos (já que hoje eu aparento ter 15). Nem amadureci tremendamente. Mas, essa semana, eu comecei a me interessar por algo que pouquissimas pessoas se interessam – ainda mais uma pessoa com menos de 30 anos.
Ficção Interativa. Ou Interactive Fiction, como é mais conhecida – raramente se vê referências a esse gênero em português. Um meio de comunicação que está entre a literatura e o jogo e que tem poder para ser uma expressão muito interessante da literatura moderna.
Infelizmente, por limitações (dos programas e dos designers), muitas ficções interativas se transformam em jogos de “adivinhe o verbo”:
“Você está em um sala, diante de uma mesa com livros e materiais escolares.”
> Pegue o livro
“Eu não entendo, qual livro?”
> Pegue materiais escolares
“Eu não preciso de tudo isso”
>Examine livros
“São apenas livros”
>Vá se foder
“Desculpa, eu não compreendo esse verbo”
O que, certamente, não é uma experiência muito… inspiradora. Além disso, como poucos jogadores gostam desse gênero, um novo jogador pode se sentir intimidado pela falta de gráficos, sons, e por não estar habituado com o universo dos IFs – um jogador de primeira viagem pode perder a vontade de jogar só de ficar olhando para aquela de texto, sem saber o que deve digitar, especialmente se ele tiver cada tentativa de interagir com a história negada através de uma síndrome de “eu não reconheço esse verbo” ou “isso não é relevante”.
Eu sei, já aconteceu comigo e mais de uma vez me afastou desse gênero, que eu não sei dizer se “jogo” ou se “leio”. Interajo, acho.
Mas voltei a tentar, e obtive uma experiência… interessante.
Não irei relatar qual o jogo, por um simples motivo: irei contar o final, e é um tanto chato jogar um jogo como esse já sabendo o final. Conto apenas a minha experiência, retirando as pequenas frustrações encontradas pelo caminho (“Eu preciso jogar minhas coisas no chão para poder tomar banho? WTF?”):
Era um dia comum, como qualquer outro. Você acorda com uma ligação de um colega de trabalho, reclamando que você está atrasado e que vai te matar se você não levar seu traseiro até o trabalho AGORA. Ele desliga antes que você tenha tempo de esboçar alguma resposta.
Você está atrasado para o trabalho e parece ter tido uma noite daquelas, a considerar pelo fato de você estar suado e com as roupas sujas. Mecanicamente, você toma um banho, troca de roupas, pega suas coisas, sai do apartamento e pega seu carro.
Dirige até seu trabalho, estaciona, entra, vai até o seu cubículo, lê a nota e assina o formulário. Calmamente, você vai até o seu chefe entregar o bendito formulário para o seu chefe.
E aí é que o jogo dá um gancho de direita em você, exatamente quando o “seu” chefe diz: “Quem é você? E por que você está no lugar do Fulano? Polícia, polícia!”
A cena é cortada. Aparece um noticiário: “Para as notícías mais leves, um assaltante assaltou um apartamento, matou o morador com várias facadas e escondeu o corpo debaixo da cama. Mas isso não é tudo: ele dormiu no lugar do assalto e, no dia seguinte, tentou ir para o trabalho do morador e fingiu ser o mesmo, como se nada tivesse acontecido! Foi preso quando foi visto pelo chefe do falecido morador. Agora, para as notícias do tempo…”
E eu fiquei, estupefata, olhando para o monitor. Reiniciei o jogo, olhei embaixo da cama e… sim, lá estava o corpo.
Um jogo curtissímo, de cerca de 10 minutos. Mas que serviu para mostrar como esse meio de comunicação pode ser usado: para “brincar” com a percepção do jogador, para induzi-lo por um caminho enquanto que a verdade está logo do outro lado. Brinca justamente com uma das coisas mais interessantes da ficção interativa: você depende do jogo para ver o mundo ao seu redor, sua visão é bastante limitada pelo que você imagina que pode explorar.
Justamente, a grande força da literatura consiste em brincar com o “sentido” mais poderoso do ser humano, a imaginação. E o que pode se obter a partir daí, num misto de literatura com brincadeira, como uma mão que se estende de dentro de um livro e pergunta “este é o meu mundo, mas para onde você quer ir agora?”
Embora, é claro, boa parte das histórias sejam muito voltadas a “puzzles” para o meu gosto, mas eu creio que esse tipo de ficção interativa tem o seu público. Pessoalmente, continuo atrás de jogos que consigam brincar com minhas percepções.
Se achar mais alguma coisa, vou ver se posto alguma opinião aqui – desta vez com nomes do jogo e sem spoilers.

Alvaro Cavalcanti
outubro 21, 2008 at 12:30 pm
Devo admitir que nunca joguei, ou melhor, faz muuuuuito tempo desde que joguei FI no computador. Lembro de ter jogado uns dois livros do gênero, também conhecido como Aventura Solo (a Devir publica alguns).
Além disso eu redescobri o gênero ao fazer meu curso de GD onde um dos exercícios era justamente elaborar uma AS. A minha ficou incompleta, mas ainda desenrolou-se um bocado. Se quiser conferir, fique à vontade:
http://gamerbrasilis.wordpress.com/2008/06/10/aventura-solo-text-adventure/
)
rootshell
novembro 24, 2008 at 3:50 pm
adorei seu post. Sou de Portugal e fan de Interactive Fiction, por isso se tiver links para sites brasileiros de IF por favor partilhe, eu recomendo http://www.ifreviews.org e http://www.ifarchive.org.
miwi
novembro 24, 2008 at 3:55 pm
realmente, eu também sinto falta de comunidades em português sobre o assunto… eu pretendo falar mais sobre isso, até comecei a escrever um pouco, mas com o final do semestre isso acabou ficando meio de lado. Mas é algo que eu quero retomar nas férias.
Se vc tiver alguma IF para recomendar, recomende!
rootshell
novembro 24, 2008 at 9:50 pm
adorei seu post. Sou de Portugal e fan de Interactive Fiction, por isso se tiver links para sites brasileiros de IF por favor partilhe, eu recomendo http://www.ifreviews.org e http://www.ifarchive.org.
miwi
novembro 24, 2008 at 9:55 pm
realmente, eu também sinto falta de comunidades em português sobre o assunto… eu pretendo falar mais sobre isso, até comecei a escrever um pouco, mas com o final do semestre isso acabou ficando meio de lado. Mas é algo que eu quero retomar nas férias.
Se vc tiver alguma IF para recomendar, recomende!
namekuseijin
março 17, 2009 at 10:00 pm
Minhas recomendações:
http://suitable-matters.blogspot.com/2009/03/gu...
namekuseijin
março 18, 2009 at 1:48 am
Legal. Me amarro em IF. Também não vivi a época da Infocom e só fui conhecer o gênero bem mais tarde, através dos jogos no ifarchive. Igualmente tenho procurado uma comunidade brasileira de entusiastas (nem traduções para o sistema Inform tem).
Guess-the-verb era uma falha típica dos jogos dos primórdios, que não davam suficiente atenção a sinônimos ou à comandos diferentes do esperado. Nenhum de seus exemplos é de guess-the-verb, mas do jogo efetivamente tentando te ajudar a resolver ambiguidades (“Eu não entendo, qual livro?”) ou simplesmente informando que o item em questão não é importante (“Eu não preciso de tudo isso”, “São apenas livros”) ou que vocabulário chulo não é aceitável.
Guess-the-verb é não dar a chance do jogador usar mais de uma palavra ou comando equivalentes. O jogo que você citou é excelente nesse aspecto. Por exemplo, para atender o telefone você pode:
> get phone
> take phone
> pick up phone
> pick phone up
> answer phone
Todas perfeitamente aceitáveis. Guess-the-verb seria o implementador dop jogo escolhendo apenas uma dessas como sendo o único comando que o jogador poderia utilizar para se fazer entender. IF em geral melhorou muito nesse aspecto.
E quanto à ”Eu preciso jogar minhas coisas no chão para poder tomar banho? WTF?” Você preferiria entrar de roupa e tudo no chuveiro?
Bem, na falta de idéias sobre o que fazer para divulgar esse estilo de jogo, procurei divulgar o gênero recentemente no meiobit:
http://meiobit.pop.com.br/games/destaque/conhec...
Por email, ajudei um dos caras que comentaram a terminar Balances, do Graham Nelson, uma das dicas de jogos que deixei. Mas minha lista padrão de recomendações geralmente é assim:
http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch...
http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch...
http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch...
http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch...
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http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch...
http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch...
http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch...
e os clássicos da Infocom:
http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch...
http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch...
http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch...
http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch...
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http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch...
http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch...
http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch...
Infelizmente, geralmente só indico jogos zcode jogáveis através do interpretador em javascript Parchment e isso deixa de fora sensacionais jogos modernos gigantes como Nightfall para Glulx e todos os jogos para TADS, o que é lamentável…
namekuseijin
março 18, 2009 at 2:00 am
Minhas recomendações:
http://suitable-matters.blogspot.com/2009/03/gu...